O futebol brasileiro sempre ultrapassou os limites do campo, espelhando lutas e tensões da sociedade, andando lado a lado com fanatismo das Torcidas Organizadas que abraçou essas causas. Durante os anos finais da Ditadura Militar (1964-1984), o esporte se converteu em um dos palcos mais simbólicos da contestação política, tendo esse período uma crescente na mobilização popular e do movimento Diretas Já, as arquibancadas deixaram de ser apenas espaços de torcida para abrigar vozes que imploraram por liberdade, justiça e escolha democrática. A expressão mais emblemática dessa relação entre futebol e política foi a Democracia Corinthiana, um movimento que marcou não só o clube paulista mas também o debate nacional.
A Democracia Corinthiana, entre 1981 e 1985, rompeu com tradições autoritárias dentro do próprio futebol ao implementar um modelo de gestão participativa. Em um Brasil ainda sob a sombra da Ditadura, onde a população não tinha acesso a eleições diretas para presidente, o Sport Club Corinthians Paulista promoveu decisões coletivas envolvendo jogadores, comissão técnica, roupeiros e massagistas por meio do voto. O movimento foi articulado por líderes como Sócrates, ídolo e capitão que se tornou símbolo da luta pela liberdade, Wladimir, lateral com forte presença política, e Casagrande, jovem goleador que questionava as estruturas hierárquicas do esporte.
O impacto da Democracia Corinthiana extrapolou os limites do clube. Os princípios de autogestão e participação refletiam em muito o que a sociedade pedia nas ruas em apoio às “Diretas Já”, que era um movimento popular massivo que clamava por eleições diretas para presidente e mobilizou milhões em manifestações por todo o país. Sócrates, além de capitão, tornou-se porta-voz desse encontro entre futebol e política, participando ativamente de debates, entrevistas e eventos relacionados às Diretas Já. A famosa faixa corintiana “Ganhar ou perder, mas com democracia” tornou-se símbolo dessa intersecção entre paixão pelo clube e engajamento político.
A excitação das arquibancadas e o engajamento das torcidas organizadas também ganharam expressão em outros clubes. Ao lado da Gaviões da Fiel, outras torcidas como a Torcida Jovem do Santos, Mancha Verde (Palmeiras), Raça Rubro-Negra (Flamengo), Força Jovem do Vasco, A Coligay do Grêmio (representou uma forma de resistência ao afirmar a presença da comunidade LGBT em um ambiente historicamente conservador) e a torcida organizada do Fluminense levaram mensagens, faixas e cânticos que dialogavam com o clamor por democracia. Essas manifestações, muitas vezes silenciosas nas capas dos jornais à época, colaboraram com a construção de um sentimento de resistência e unidade popular contra a Ditadura Militar.
O legado da Democracia Corinthiana e das torcidas organizadas revela que o futebol, em sua essência social, pode ser um canal de expressão política e de mobilização por direitos. Ao misturar paixão pelo clube com as lutas e pela superação da Ditadura Militar, as arquibancadas contribuíram para um dos momentos mais emblemáticos da história da democracia brasileira, mostrando que a voz do torcedor podia ecoar muito além dos estádios.
Para quem deseja aprofundar no papel dessas torcidas na redemocratização do Brasil, a análise detalhada está disponível em uma excelente referência histórica: Grito de Liberdade: o papel essencial das torcidas na redemocratização, que contextualiza como as arquibancadas se tornaram um verdadeiro “grito de liberdade”.







