Durante o Fórum Brasileiro de Treinadores, disse que torcia para que Carlo Ancelotti tivesse sorte na Copa do Mundo e, depois, deixasse o cargo para um técnico brasileiro.
A frase foi dita num evento em que o próprio Ancelotti estava no palco, e rapidamente viralizou.
A cena, por si só, já seria constrangedora. Mas o que veio depois foi ainda pior: Oswaldo recusou-se a pedir desculpas, disse que não falou nada de errado e reafirmou a convicção de que o comando da Seleção deve ser de um brasileiro.
Nada contra o patriotismo, eu também preferiria que o meu selecionador de Portugal fosse, de facto, português, mas há momentos em que o patriotismo soa a medo.
O episódio foi vergonhoso porque revelou um pensamento que ainda me choca no futebol brasileiro: o receio do que vem de fora e o medo de ser substituído.

Quando o orgulho vira obstáculo
Renato Gaúcho também já deu declarações com o mesmo tom:
“Do jeito que falam, parece que chegaram 100 portugueses e 90 tiveram sucesso. A paciência que a imprensa brasileira tem com o estrangeiro, não tem com o brasileiro.”
Vanderlei Luxemburgo também já tinha ido pelo mesmo caminho meses antes, dizendo que “os portugueses não inventaram o futebol moderno”.
Essa narrativa tem um problema simples: os estrangeiros que chegaram realmente tiveram sucesso.
Jorge Jesus transformou o Flamengo num rolo compressor e virou lenda em poucos meses.
Abel Ferreira criou um império no Palmeiras, continua empilhando taças e está novamente numa final da Libertadores.
Pedro Caixinha levou o Bragantino a uma classificação histórica.
Leonardo Jardim, campeão francês com o Mónaco frente ao todo-poderoso PSG, está a brilhar num Cruzeiro que tenta renascer do caos.
Artur Jorge foi campeão da Libertadores com o Botafogo…
Até Vítor Pereira, tão criticado, conseguiu eliminar o Boca na Bombonera com um dos piores Corinthians de sempre.
Não chegaram 100, e nem todos tiveram resultados.
Sejamos honestos: não são todos bons.
Mas os que venceram… venceram a sério.
O espetáculo do Craque Neto
No meio disso tudo, o meu favorito e sempre imprevisível Craque Neto não podia ficar de fora.
Mandou Leonardo Jardim “voltar pra sua terra” e fez do caso um show.
E eu confesso: me entretenho muito com o Craque Neto.
É carismático, autêntico, engraçado, mas às vezes passa-se da cabeça.
E quando a paixão ultrapassa a razão, o debate perde-se.
Jardim não desrespeitou o Brasil. Pelo contrário: quis vê-lo melhor.
A ironia do destino
É curioso notar que, entre tantos nomes, talvez o melhor técnico brasileiro da atualidade seja Filipe Luís, e ele é um produto da escola europeia.
Aprendeu tática, estrutura e mentalidade no Velho Continente.
É quase poético: o futuro dos tecnicos brasileiros seja um gajo moldado em Madrid e Londres.
O que isso mostra?
Que o intercâmbio é necessário.
Que ninguém evolui trancado na própria bolha.
E sabem quem entendeu isso muito bem? A Arábia Saudita.

O risco do isolamento
A Arábia está a crescer, claro, com dinheiro infinito, mas o que realmente faz diferença é a estratégia.
Eles vão buscar o conhecimento dos melhores, contratam técnicos de ponta, montam estruturas modernas e aprendem todos os dias.
E não duvidem: em breve vão surgir grandes talentos árabes, tanto dentro das quatro linhas como a comandar.
No sentido oposto está a Rússia.
Claro que a guerra os tirou do mapa, mas mesmo antes disso a liga russa já vivia algo semelhante ao que se vê hoje no Brasil.
Era uma das mais ricas do mundo, tinha jogadores talentosos — obviamente, menos artísticos, mais objetivos — e estádios de primeiro nível.
Mas fechou-se.
Recusava treinadores estrangeiros e os jogadores quase não saíam do país.
Resultado: estagnação.
Abrir as janelas
O futebol brasileiro tem uma das torcidas mais apaixonadas do mundo, estádios cheios e clubes com poder financeiro cada vez maior.
Mas ainda falta algo essencial: abrir as janelas e deixar o vento entrar.
Importar ideias não é perder identidade, é fortalecê-la.
E, felizmente, já há sinais de mudança.
Os clubes brasileiros e a CBF já estão a abrir os olhos, a olhar para fora, a buscar referências, a aprender.
Quem ainda está revoltado são os técnicos, e é normal.
Quando se muda uma cultura, há sempre resistência.
Mas o que importa é que a mudança começou.
O problema não é a nacionalidade. Até porque os portugueses, de facto, não inventaram o futebol moderno como diz o Luxemburgo mas tiveram a capacidade de querer aprender com quem traz algo novo.
E, sinceramente, se for pra evoluir, que venham mais estrangeiros.
Tanto o futebol brasileiro e o português só têm a ganhar.
O técnico do Porto, é Francesco Farioli, um italiano que vai em primeiro na classificação.
É cíclico.
E eu prometo continuar assistindo o Craque Neto, só pra rir um pouco no meio do caos.
Se algum dia ler isto, Neto, me convide para o Donos da Bola.







