Existe uma tendência no futebol mundial que me incomoda cada vez mais: a necessidade quase automática de dizer que “antes era melhor”.
Antes tinha mais craque.
Antes tinha mais camisa 10.
Antes a Seleção encantava.
Antes o futebol era mais bonito.
Eu não sou contra o saudosismo. Muito pelo contrário. O futebol vive de memória. Ele é construído por lembranças, por histórias repetidas na mesa do bar, por vídeos antigos que nossos familiares nos mostravam para que nos apaixonássemos pelo esporte. O problema começa quando o saudosismo deixa de ser essa memória afetiva e vira argumento definidor. E pior: vira argumento preguiçoso.
Porque, sendo muito honesto, o futebol de hoje é muito mais difícil do que já foi um dia.
O jogo evoluiu, e MUITO
O esporte evoluiu de forma brutal nas últimas décadas. Taticamente, o jogo ficou mais organizado. Fisicamente, ficou mais intenso. Psicologicamente, ficou mais exigente. Hoje, um jogador corre quilômetros a mais do que corria nos anos 90. Ele precisa recompor, pressionar, atacar espaço, defender espaço, entender transições, ler o jogo em segundos. Não existe mais o luxo da lentidão, das faltas não marcadas.
Nos anos 80 e 90, um talento acima da média conseguia decidir partidas mesmo com pouca participação defensiva. O futebol permitia isso. Hoje, se um camisa 10 não ajuda sem a bola, ele simplesmente não joga. O sistema engole o individual.
Isso não significa que o talento acabou. Significa que o talente por si só, não é mais suficiente.
O que muitas vezes é vendido como “falta de craques” talvez seja apenas uma dificuldade maior de brilhar de forma isolada, ou quem sabe uma falta de dedicação com o esporte. O jogo atual é coletivo demais para permitir que alguém resolva tudo sozinho com a mesma frequência de outras épocas. Os espaços são menores, a marcação é mais coordenada, os adversários estudam cada movimento.
Mas, é mais confortável dizer que o futebol piorou do que admitir que ele ficou mais complexo.
Hoje, até seleções medianas contam com departamentos de análise de desempenho, estatísticas avançadas, preparação física de elite e estudos minuciosos do adversário. O nível médio subiu. A diferença técnica entre as equipes diminuiu. A margem para erro está cada vez menor.
A comparação injusta entre épocas
Outro ponto que me incomoda: usamos o passado como régua injusta para medir o presente.
Comparamos jovens de 20 anos com ídolos que já estavam no auge. Comparamos contextos completamente diferentes como se fossem equivalentes. É injusto.
A Seleção de 1970 foi brilhante. Mas também enfrentou um cenário competitivo muito diferente do atual. O futebol europeu ainda não tinha o nível de intensidade que tem hoje. A globalização do jogo ainda estava em processo. O volume físico e tático era outro.
Isso diminui o que foi feito? De forma alguma. Mas ajuda a entender que não dá para analisar o presente com os olhos do passado.
O saudosismo é saudável quando inspira. Quando ele serve para lembrar que excelência é possível. Mas, ele se torna prejudicial quando vira muleta para explicar qualquer dificuldade atual. Quando cada jogador jovem é comparado a um ídolo consolidado como se fossem a mesma coisa.
O futebol não ficou pior. Ele ficou mais difícil.
E talvez seja justamente por isso que grandes atuações hoje sejam tão raras e tão valiosas. Brilhar em um cenário de altíssima exigência física, tática e mental é mais complexo do que já foi. Por isso mesmo, sujeitos como Messi e Cristiano Ronaldo são tão exautados.
Eu continuo amando rever o passado. Continuo vibrando com lances antigos. Mas me recuso a usar a nostalgia como atalho para evitar entender o presente.
E, para mim, o futebol não precisa viver tentando ser o que já foi. Precisa aprender a ser grande dentro da realidade que existe hoje.







