Acordei hoje com várias mensagens no grupo privado que tenho no Instagram com dois grandes amigos, onde falamos sobretudo de futebol, combinamos jogos e discutimos tudo o que mexe com a bola. A grande questão é que um deles é argentino, adepto do River Plate, e hoje estava revoltado. Dizia que o campeonato argentino é uma vergonha e que não entende como o país de Messi e Maradona pode ter uma liga tão fraca. E sinceramente, digo exatamente o mesmo.
O futebol argentino encanta-me pelas torcidas, pela paixão e pela intensidade única que só um argentino consegue transmitir. Mas depois olho para as competições internas e é impossível não ficar desiludido. Até queria explicar como funciona tudo aquilo, mas é praticamente impossível entender. Eles têm a Copa Argentina, o Trofeo de Campeones, a Supertaça Argentina, o Apertura, o Clausura, outra supertaça qualquer e ainda um troféu anual que o Rosario Central venceu ontem, um título decidido literalmente no próprio dia. É absurdo e caricato.

Claro que com isto surgem teorias de que o Boca Juniors e o Rosario Central estão a ser beneficiados porque os campeões do mundo Paredes e Di María regressaram ao país, algo cada vez menos comum. Diz-se que isto seria uma forma de agradecimento, uma compensação por valorizarem o campeonato ao voltar. Mas não, não é assim que se valoriza competição nenhuma.
Se a Argentina quer competir com o Brasil, seja na Libertadores, na Sul Americana ou no mercado global, precisa de um modelo sólido, credível e atrativo. E sabem o que ajudava? Copiar o modelo que quase todo o mundo usa: uma liga normal, com jogos entre todas as equipas, uma época e um campeão. Parece simples, mas na Argentina conseguem complicar até o mais básico.
E depois existem decisões que ultrapassam o absurdo. Claudio Tapia, presidente da Associação de Futebol Argentino, decidiu, a dez jornadas do fim do campeonato, que nesta época não haveria descidas de divisão. A razão é simples: a liga vai aumentar de vinte e oito para trinta equipas, por isso sobe gente e não desce ninguém. O último classificado é o Barracas Central, totalmente a salvo. Até aqui já seria polémico, mas agora reparem nesta coincidência deliciosa. Claudio Tapia foi presidente do Barracas Central, o estádio do clube chama-se Claudio Tapia, o atual presidente do Barracas Central é Matías Tapia, filho de Claudio, e o capitão da equipa é Iván Tapia, outro filho. Tudo limpíssimo e muito profissional.

E depois perguntam porque ninguém leva a competição a sério. Eu digo mesmo: ninguém quer ver isto.
Mas vamos às soluções, porque criticar é fácil e apresentar alternativas é mais difícil. Aqui está a receita para melhorar o futebol argentino. Uma liga com vinte equipas, como acontece nas principais ligas do mundo. Jogos entre todas as equipas, duas voltas e um campeão por época. Os três últimos descem para uma segunda divisão organizada da mesma forma. Simples, justo e competitivo.
E existe ainda uma solução ambiciosa que podia mudar tudo: unir as ligas da Argentina e do Uruguai numa liga da região do Rio da Prata. Penarol, Nacional, Boca, River, Racing, Independiente… seria uma competição de enorme qualidade. Valorizava os dois países, aumentava o nível competitivo, fortalecia as seleções e criava condições reais para rivalizar com o Brasil. Se a união não for possível, que cada país siga a mesma receita de forma independente.
Porque não é o regresso de Di María, com todo o respeito pela lenda, que vai fazer o mundo olhar para a liga argentina. Muito menos que vai aproximar a Argentina do Brasil. É somente para encantar e tapar os olhos aos argentinos.
Eu continuo a querer ir à Argentina ver um jogo, é um sonho que tenho. Mas se o futebol argentino continuar assim, o cenário vai tornar-se quase irreversível. E vou continuar a ouvir o meu amigo do River, chateado, a contar histórias de quando eram dominantes na América do Sul.
A verdade é que a Argentina ainda pode voltar ao topo. Mas não com este campeonato, não com estas competições e muito menos com esta liderança.







