O ponto central da reformulação da Superliga Europeia desta semana não é a competição, mas sim a centralização do capital. A discussão sobre a potencial inclusão de grandes clubes portugueses como Benfica, FC Porto e Sporting na elite da Star League não é um debate sobre mérito esportivo, mas sobre a diplomacia do dinheiro, que ameaça o esporte em sua essência.
A Superliga, seja na versão inicial ou na que foi apresentada há alguns dias, nasce do desejo de poucos clubes europeus de garantir receitas fixas multibilionárias, protegendo-se da instabilidade do desempenho esportivo e das dívidas históricas acumuladas por gestões irresponsáveis. Ao oferecer somas astronômicas (potencialmente centenas de milhões de euros anuais) aos clubes convidados, ela não está propondo uma competição mais justa, mas sim uma compra da lealdade de aliados estratégicos.
A Tentação Portuguesa e a Ausência Brasileira
Para os clubes portugueses, o dilema é financeiro. As ligas nacionais de Portugal e o modelo de distribuição de receitas são insuficientes para competir com as grandes competições como a Premier League ou a La Liga. A Superliga surge, portanto, como uma tábua de salvação que lhes permitiria reter talentos e a possibilidade de aceder a um poder de compra que hoje não possuem. A escolha entre a estabilidade financeira garantida e a tradição da UEFA é a decisão mais difícil que estes clubes enfrentarão em décadas.
No que tange aos clubes brasileiros, o cenário atual da Superliga não prevê a inclusão de equipes da América do Sul nas divisões de elite. O foco do projeto é estritamente europeu, o que acentua a marginalização do futebol sul-americano. O futebol brasileiro, rico em talento e paixão, é relegado a ser, cada vez mais, uma fonte de matéria-prima para o mercado europeu.
O foco no lucro contra o foco no jogo
O sensacionalismo deve ser substituído pela análise crítica: o projeto da Superliga é um sintoma da doença mais grave do futebol moderno: a priorização do lucro do acionista em detrimento da paixão do torcedor.
- A instabilidade mata a base: Ao criar uma elite financeira blindada, o projeto aumenta o abismo para todos os outros. Isso desvaloriza os campeonatos nacionais e mata o sonho de clubes menores de um dia desafiarem os grandes.
- O calendário mata os atletas: O projeto exige mais jogos de alto nível, ignorando a saturação do calendário e a saúde física dos atletas. Isso degrada a qualidade do espetáculo, trocando a excelência pela exaustão.
- O dinheiro mata o mérito: A proposta, mesmo com acessos variados e até uma despromoção, é desenhada para que os clubes fundadores e os convidados de primeira linha jamais percam seu status econômico, independentemente de um desempenho ruim em uma ou duas temporadas. O dinheiro se torna o escudo, e não propriamente o mérito esportivo.
Em essência, a Superliga é a materialização do cinismo: uma competição criada por amor ao dinheiro, que ameaça o que há de mais puro no desporto: o amor à camisola e a crença de que, com trabalho e competência (como exemplifica Abel Ferreira no Palmeiras), qualquer equipe pode derrotar um gigante.
A Superliga busca tornar essa crença obsoleta, sentenciando o futebol a ser apenas um produto de entretenimento de elite.







