Em 2006, três seleções de língua portuguesa estiveram na Copa da Alemanha: Portugal, Brasil e Angola. Vinte anos depois, podemos voltar a ter um trio lusófono na maior prova desportiva do planeta. Cabo Verde está a um passo de um feito histórico: a qualificação para a Copa de 2026.
Se conseguir, os Tubarões Azuis se tornarão o segundo menor país da história a disputar uma Copa. O recorde continua a pertencer à Islândia (2018), com cerca de 340 mil habitantes. Cabo Verde, com pouco mais de 600 mil, ficaria logo atrás.
Talento natural, condições limitadas
A comparação com a Islândia é inevitável. Os islandeses chegaram à Copa graças a um investimento massivo em infraestruturas e formação: quase toda localização possui campos modernos e a maioria dos treinadores possui licenças UEFA.
Cabo Verde, pelo contrário, vive com condições muito limitadas. A realidade do país é marcada pela emigração: o talento nasce nas ilhas, mas cedo parte em busca de melhores oportunidades, sobretudo para Portugal, pela ligação cultural e linguística. Resultado? A seleção cabo-verdiana depende fortemente da diáspora.
Jogadores nascidos ou formados na Europa são a espinha dorsal da equipe. Muitos, como Nani, Gelson Martins, Eliseu, Rolando ou Manuel Fernandes, acabaram por escolher representar outras bandeiras. Mas o fato de existirem tantos nomes de topo com raízes cabo-verdianas prova a riqueza natural do talento do arquipélago.
O caso insólito do LinkedIn
Um dos exemplos mais caricatos da diáspora é Roberto “Pico” Lopes, zangueiro do Shamrock Rovers, nascido em Dublin. A história parece anedota: quase perdeu a oportunidade de representar Cabo Verde porque ignorou uma mensagem em português do então técnico da seleção Rui Águas… no LinkedIn. Só respondeu quando recebeu nova mensagem em inglês.Hoje é peça-chave da defesa e já participou no CAN 2021 e 2023. O episódio mostra até que ponto a Federação tem sido criativa e determinada para não desperdiçar talento espalhado pelo mundo.

Vitória histórica sobre os Camarões
A confirmação da maturidade desta geração chegou no último jogo: vitória por 1-0 sobre os Camarões, um dos gigantes do futebol africano. O gol de Dailon Livramento provocou uma explosão popular, com invasão de campo e festa pelas ruas de Santiago.
Agora faltam apenas dois jogos – contra a Líbia, em Trípoli, e contra o Essuatíni, em casa – para concretizar o sonho. Três pontos separam Cabo Verde na Copa 2026.
O peso do sonho
Para os cabo-verdianos, esta qualificação teria um valor incalculável. Se para portugueses e brasileiros estar numa Copa é uma espécie de obrigação, para Cabo Verde seria como levantar o troféu. Tenho amigos cabo-verdianos e sei bem a loucura e orgulho que atravessa a comunidade neste momento.
Por isso, torço por eles. Claro que quero ver Portugal campeão, com os “irmãos chatos” do Brasil sempre a lutar pelo título. Mas confesso: se Cabo Verde marcar presença no Mundial 2026, vai ganhar mais um adepto apaixonado – eu.







